O ano em que não houve Verão

Quando estou envolvido num problema, raramente tenho lucidez e capacidade para imaginar como será que irei ver a situação mais à frente, mas, invariavelmente, aquilo que me é apresentado como um problema, com a bênção do tempo, passa a ser um desafio, que de forma melhor ou pior acabamos por ultrapassar. Escrever sempre me ajudou a refletir e, neste caso, a caneta e o papel continuam a ser melhores companheiros de viagem, bem melhor que o teclado e o monitor. Quando a tinta começa a tingir o papel e as palavras passam de garatujas quase indecifráveis a texto passado a limpo no computador, como resposta à solicitação que recebi de escrever sobre estes tempos de pandemia, penso de imediato que este ano de 2020 será para sempre recordado como o ano da COVID-19, mesmo que a doença tenha sido batizada com o ano em que surgiu. Apesar de ainda agora a Primavera ter entrado na sua plenitude com tardes de sol, campos floridos e nêsperas a pedir para serem colhidas, este ano irá ser também recordado como o ano em que não houve Verão.

Não é novidade para a Humanidade ter um ano sem Verão pois, embora por outras razões, o ano de 1816 ficou conhecido por ser o ano em que não houve Verão. O que aconteceu tem como semelhança com a nossa atual situação, o facto de algo com início na Ásia, espalhar-se pelo resto do mundo, sobretudo Hemisfério Norte e trazer consigo uma enorme calamidade. Foi em Abril de 1815 que o Vulcão Tambora, na Ilha de Sumbawa, atualmente Indonésia, na altura território colonizado pelos holandeses, teve uma erupção fora do normal, a maior de que há registo depois do ano de 180 da Era de Cristo, tendo registado o nível 7 no índice de explosividade vulcânica. Esta fez acumular uma quantidade gigantesca de poeiras na atmosfera e que viria a provocar no imediato cerca de 10.000 mortes aquando da erupção e devido ao efeito da queda de toneladas de cinza, cerca de 70.000 fatalidades nos dias seguintes e arrastando o seu véu de desgraça um pouco por todo o Hemisfério Norte, sobretudo no ano seguinte, com registos de fome e muitas doenças, devido às más colheitas que ocorreram fruto das condições meteorológicas completamente atípicas, com chuvas e temperaturas gélidas no lugar do sol de Verão, que viria a fazer que 1816 fosse conhecido como o ano em que não houve Verão.

Tento imaginar o que as pessoas na altura percecionavam do sucedido, sem que houvesse TV, Rádio, Facebook ou Twitter para informar, mas também havendo lugar a fake news, na altura com outro nome e com capacidade para espalhar o terror, algumas delas certamente remetendo para questões divinas…

Passando para os nossos dias, acho que o ano de 2020 vai ficar novamente marcado por ser um ano em que não houve Verão, porque deixaremos de ter, ou pelo menos teremos de forma muito condicionada, tudo aquilo que nos faz amar a mais quente estação do ano: as férias para a maioria dos mortais ocorrem no querido mês de agosto, as férias grandes para quem anda na escola, a praia, os festivais de Verão, os churrascos sem fim com amigos e família, as festas da aldeia com os cantores pimba, as procissões, e sobretudo os planos que nos fazem “pré-vivenciar” o Verão, uns meses antes dele aparecer. 

2020 será sem dúvida um ano incomum, como já está a ser esta Primavera. Tendo chegado a Portugal para uma curta visita 4 dias antes da OMS ter declarado pandemia, vi-me impedido de voltar a Nampula, em Moçambique, minha residência habitual, devido ao cancelamento dos voos pela TAP. Sem data de regresso, vi-me obrigado a fazer o que a maioria dos portugueses e a Helpo fizeram, reinventei-me e consegui dar sentido às coisas. Em vez de reunir com os parceiros institucionais em Moçambique e visitar as nossas comunidades para monitorizar os trabalhos e perceber novas situações, fazendo quilómetros sem fim em estradas de terra batida debaixo de um sol que começa a ser menos impiedoso nesta altura do ano, uso agora as minhas horas da manhã para dar apoio à Junta de Freguesia de Cascais e Estoril, que tem um programa de apoio a famílias necessitadas e a quem distribui refeições. Mais do que nunca, temos agora muitas famílias a passar muito mal. Desde a primeira hora, a Helpo deu a mão quem sempre nos deu apoio, neste caso a Câmara Municipal de Cascais e a Junta de Freguesia de Cascais Estoril, onde a Helpo está sediada. Também abrimos um posto de venda de máscaras a preços acessíveis numa iniciativa que a Câmara de Cascais promoveu em parceria com várias instituições do concelho, para permitir generalizar os padrões de segurança a preços decentes.

Não deixo de acompanhar de perto a evolução da situação em Moçambique, ao dia de hoje com 70 casos positivos, mas ainda sem registo de mortes. O Serviço de saúde público é deficitário mas há um grande esforço por parte das autoridades para minimizar os riscos, e até recebi mensagens dando nota de Hospitais em Maputo onde aparentemente estão a fazer das fraquezas força e o protocolo está a ser cumprido rigorosamente. Não sei se será assim em todo o país, pois conheço bem a realidade das províncias do norte do país, com Centros de Saúde e Hospitais mal equipados. Para minimizar os problemas, a Helpo canalizou os fundos do programa na área da Educação para dar apoio à Saúde, estando neste momento empenhada no fabrico de máscaras comunitárias caseiras para distribuir pelos colaboradores e suas famílias, agentes comunitários, e alunos bolseiros. Também estão a ser dados apoios em materiais aos Centros de Saúde e Hospitais com entrega de termómetros e muito outro material necessário, além de pequenas melhorias em infra-estruturas, nomeadamente no Hospital da Ilha de Moçambique (https://www.facebook.com/111679148800/videos/2580829348805704/). 2020 será certamente lembrado como o ano em que não houve Verão, mas acredito que a disciplina e a perseverança dos portugueses e a resiliência e constante boa disposição dos moçambicanos, venha a fazer com que depois deste vazio na agenda e dos diários monótonos, venham tempos de celebração.

Uma das histórias brilhantes que surgiram no rescaldo do ano em que não houve Verão de 1816, ocorreu em 1817 quando o Barão alemão Karl Von Drais, criou a laufmaschine – máquina andante, também conhecido por Dreisiana, um protótipo da bicicleta, havendo a especulação que a necessidade que aguçou o engenho foi o facto da fome do ano anterior ter aumentado exponencialmente o preço dos  “combustíveis” dos meios de transporte da altura, os cavalos. Se não havia comida para os seres humanos, certamente era também rara para os animais. Outro marco importante atribuído como dano colateral do ano sem Verão, foi o facto de Frankenstein, considerado a primeira obra de Ficção Científica, ter surgido quando Mary Shelley,  tendo passado uma longa temporada confinada à beira do Lago Léman, nos Alpes, devido às condições meteorológicas hostis que condicionaram as esperadas férias de Verão que não aconteceria, na companhia de Lord Byron, e John Polidori. Tendo sido lançado o desafio por Lord Byron de criar histórias de terror, Mary Shelley surgiu com o que viria a ser Frankenstein, Polidori criou algo que viria a dar origem ao romance “O Vampiro”, que mais tarde serviria de inspiração a Bram Stoker para o seu “Drácula”.

Mais do que nunca há vontade de abraçar familiares e amigos, celebrar as coisas boas que normalmente damos por garantidas, não dando por isso o devido valor. Mesmo sem festivais de verão, sem a praia e outros eventos, esperamos conseguir celebrar todos juntos em breve. Até lá vale a pena manter a disciplina e se a vida voltar ao normal tentar prolongar os cuidados no tempo para proteger os mais frágeis, para salvaguardar os nossos profissionais de saúde e as forças de segurança pública, que tanto têm feito por todos nós. Se o último ano sem Verão deu origem à bicicleta e à ficção científica, talvez também venham coisas boas deste annus horribilis, que parece não ter data para encarrilar. 

Terminando com um cliché, acredito que sairemos mais fortes desta terrível situação que nos atingiu a todos. E certamente, da próxima vez que andar de bicicleta ou vir um filme de ficção científica, lembrar-se-á que, por vezes, florescem maravilhas a partir da desgraça. 

Carlos Almeida, Coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

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