Economia da Sobrevivência

Isolamento é o nome próprio de muitas comunidades que tratamos por “tu”. Vítimas de um afastamento do mundo que as vota a um sentimento de viverem apenas entregues a si próprias. A vida corre dentro dos limites do que os olhos conhecem. Só aquelas pessoas, só aquelas estradas que existem conforme a vontade do capim, só aquelas dores que se partilham com a família, com o curandeiro e com um deus que pode ter um nome qualquer.

O isolamento tem brechas concretas e com dia e hora marcados. As eleições, as campanhas de vacinação, e as saídas para comprar e vender carvão, vender o que se conseguir na beira de alguma estrada que deixe passar carros ou motas. Numa banca improvisada. Um isolamento que poderia agora ser uma tábua de salvação; a fórmula para a construção de ilhas a salvo da omnipresença da COVID19. Mas as brechas. Nestas comunidades que vivem em permanente lockdown, eliminar essas brechas é morrer antes mesmo da chegada da morte.

O meu sogro nasceu e cresceu no coração do Alentejo, num tempo em que diariamente os latifundiários da zona acorriam à praça pela manhã e escolhiam a dedo os homens que naquele dia iriam trabalhar nas terras, à jornada. Tu, tu, tu e tu. Os outros, nada, a cabeça baixa e os pratos vazios. Ao final do dia, uns afortunados teriam umas moedas para porem alguma comida na mesa. Assim se fazem os dias nestas terras. Hoje. 70 anos depois dos das manhãs que começavam na praça. Dias em que passou alguém na banca e hoje há que comer. Dias em que não passou e pode ser que ainda haja alguma farinha de ontem, talvez sem óleo, talvez agraciada por alguma erva da machamba, se a chuva permitiu. Por estas paragens o “abrandamento da economia” não constitui uma preocupação; a chegada da COVID19 também não. Um carro a mais na estrada ou um carro a menos, isso sim. Por aqui o nosso trabalho é esclarecer que a morte conseguiu talhar mais um caminho, que pode chegar mais e com mais força. E que a luta contra ela se faz com o que por ali escasseia. Água, sabão, boa alimentação, afastamento social (?).

Acorremos aos pedidos por parte das estruturas de saúde com um nó na garganta do tamanho do que separa milhões de pessoas destas estruturas: dezenas de quilómetros, estradas sem estrada, a fraqueza nas pernas que desmotiva uma caminhada tantas vezes infrutífera (mesmo nas estruturas de saúde os recursos são tão poucos que por vezes pouco distingue um posto de saúde de outra casa de alvenaria qualquer). Acorremos aos pedidos e procuramos antecipar-nos a mais uma crise que vai ser feita de ingredientes sobejamente conhecidos: fome, pobreza, sofrimento e morte. Uma crise que povoa a existência de milhões de pessoas e que parece ser interrompida fugazmente de tempos a tempos com lampejos de esperança que desvanecem tão rápido quanto surgem. Até quando?

Joana Lopes Clemente, Coordenadora Geral e Executiva da Helpo

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