O dia que não acabava

Os dias deixam um sabor áspero no corpo. Há aquela primeira carícia da claridade sobre os olhos em que se sente a manhã nas pálpebras e ainda não veio à consciência aquela sensação que se deita, pesada, sobre o estômago, de dias repetidos entre o computador, as paredes, as rotinas e a saudade não se sabe muito bem de quê! Há falta de quase tudo, nestes dias. Há falta de pessoas e de certezas. Falta de um passado recente onde o quotidiano se povoa quase espontaneamente de gente e azáfama, sem esforço, sem planeamento, sem vazios. 

Há um sabor a um dia interminável que teve início algures no meio de março e que por muito que acordemos não rompe a membrana do sonho que queremos que acabe! Um sabor apenas a princípio e à imensidão de indefinição de tempo e espaço que acontece quando nos encontramos numa coisa assim, que só começou. E o tamanho que tem que ter esta coisa, que engoliu o mundo inteiro e o mantém assim, em suspenso, preso ao princípio de um tempo que não se sabe onde termina e sobretudo, como termina. Sabe-se que, quando terminar, a lembrança do peso que se deita no estômago dia após dia. A importância do sol e do vento.

Agora, manifestações extremas de amor e ódio, de quem a tudo está disposto e a nada, de quem (re)descobriu coisas e também de quem tudo sabe, de tudo. Estamos dentro de uma tômbola que, quando parar de girar, tanto pode parar bem como mal. Muito mal. Ou talvez pare sempre bem e mal e a parte incógnita esteja na forma como somos capazes de olhar para as coisas, quando pára!

Agora, as manhãs sem vento no rosto, sem espaço para improvisos e sem grande margem para os apetece-me

Não é estranha a dimensão da nossa criatividade quando o mundo se fechou com a porta de casa? Ou será que na verdade o mundo, o mundo mesmo, é o que trazemos cá dentro? E cá dentro, haja vento e sol e chuva e tempestades e longos e curtos dias que começam e acabam até que este longo dia, que começou algures no meio de março, se acabe de vez.

Joana Lopes Clemente, Coordenadora Geral e Executiva da Helpo

Like this article?

Share on facebook
Share on Facebook
Share on twitter
Share on Twitter
Share on linkedin
Share on Linkdin
Share on pinterest
Share on Pinterest

Leave a comment