O futuro no fim deste caminho

Dou comigo a pensar que parece mais duro percorrer um caminho que não se sabe bem aonde leva nem quanto tempo demora a percorrer, do que cair no buraco escuro do jogo da estátua e do silêncio. O que cansa continuar a andar com base em fé ou esperança! Continuar a andar porque é o que há a fazer, e vamos marcando os dias no calendário que continuam, indiferentes, a atropelar o tempo meio desacelerado das nossas novas vidas. Os aniversários, as férias que eram para ser, os primeiros dias de calor com rituais de boas vindas à descontração do verão, os domingos em que a família era barulhenta e os dias no calendário, indiferentes a tudo o que agora não é! Amigos aos montes e carícias maternas aprisionados dentro de um telefone. Dou comigo a pensar quanto tempo somos capazes de tolerar um novo normal sem que nos deixemos cair na tristeza profunda ou resvalar disfarçada e inconscientemente na velha normalidade! Eu caminho, claro, e desvio do caminho estas interrogações de quase todas as vezes que teimam em surgir. Malditas pedras. Não vou construir nenhum castelo. Deve ser aqui que os resilientes se descobrem. Hoje julgo que quase todos o somos, mais por falta de alternativa do que por aprendizagem ou característica. Dou comigo a pensar num futuro longínquo porque o próximo parece demasiado parecido com o presente. E o que um organismo vivo invisível aos olhos é capaz de nos fazer revistar! Este vírus parece feito de tempo. Um tempo espesso e comprido. Um tempo que tem o mesmo tempo mas que parece bater tantas vezes no mesmo segundo. E de repente, noite. E de repente, outro dia. Mas nem de repente nem nunca mais, o futuro! Dou comigo a pensar porque o tempo espesso também faz isso. E percorro este caminho, mesmo que tropece, só de vez em quando, nos pensamentos-pedra.

Joana Lopes Clemente, Coordenadora Geral e Executiva da Helpo

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