A viagem continua!

18 de Março, Estação de Comboios de Ermesinde. Seria o último dia de presença física no escritório e já o vazio e silêncio nos bancos e recantos daquela estação se faziam sentir. Naquele dia em que os telejornais anunciariam o esperado Estado de Emergência, pela primeira vez declarado em 46 anos de democracia, pairavam dúvidas no ar, incerteza e muita urgência na saída, na partida, na fuga!

Guardo a imagem de dias antes nos espaços envolventes daquela estação, que frequentava por ocasião, como o café ou a farmácia, vermos a ansiedade perante aquilo que estava a acontecer quando as primeiras máscaras começaram a fazer parte das rotinas das pessoas que por lá transitavam e onde se questionava, como que em voz de sussurro “O que será que vem aí?”

Os comboios abrandaram, a voz de comando com o aviso “Vai dar entrada na linha nº 1 o comboio com destino à Estação de São Bento” que entoava a cada veículo que fazia o seu percurso, e repetida a cada 15 minutos, deu lugar a uma intermitência nas frequências, já não se observava a correria habitual da manhã ou da tarde.

Curioso numa estação que é sinónimo de viagens, de encontros, de pessoas, de histórias, de olhares que se cruzam, num frenético sobe e desce de escadas rolantes e de linhas de comboios que se atravessam, que de repente se tenha visto também obrigada a abrandar e a colocar um travão à sua engrenagem!

Pensamos muito, já em casa, como aquele espaço ficaria, como aquele frenesim se reajustaria ao que os novos tempos assim exigem, como a nossa loja social seria capaz de cumprir com segurança o seu propósito e dar resposta àqueles que religiosamente, todos os dias, nos procuravam!

Voltamos com o início de maio (e com o fim do Estado de Emergência) a chamar-nos ao ativo e ao nosso lugar! Àquele que deixou saudade e vontade de regressar!

Lembro-me de cruzar o olhar com a Sílvia e sorrirmos de máscara, com a distância de segurança obrigatória, e pensar “Continuamos aqui! Fortes e com a mesma energia, aquela que nenhum vírus será capaz de retirar!” Apesar de todos os dias termos mantido contacto à distância e dar resposta aos planos que o trabalho nos pedia nunca nos sentimos afastadas, pois colocamos foco e esperança em cada ação, mesmo que tenham estado na lonjura de uma chamada Skype!

Preparámos a abertura, com avisos, com exemplos, com distâncias, com regras, com uma ordem que não queríamos que colidisse com a alegria daquele projeto, que não desejávamos que se tornasse meramente mecânica e sem calor humano, mesmo que não seja o das conversas demoradas, dos abraços entre vizinhos ou da lotação habitual de uma segunda ou sexta-feira!

Reabrimos, com o desejo de tentar todos os dias que a Helpo seja um lugar de recomeço, onde o medo dê lugar à segurança responsável, que devolva a quem nos procura a rotina, aquela que muitos perderam ou viram alterada. Tentamos que a ansiedade e o lado mais negativo desta pandemia fique sempre à entrada, uma das diretrizes não escritas mas que norteiam sempre a nossa ação!

Hoje, passados 15 dias do regresso, e com uma quarentena de reflexão e observação feitas, posso dizer-vos que o essencial continua igual! As pessoas procuram-nos, as máscaras estão colocadas, o desinfetante para as mãos é já um habitué para todos na entrada da loja, a fila de espera é ordeira. A voz de comando da estação continua a ouvir-se com avisos diferentes mas importantes num dos concelhos com mais índice de risco no que à COVID-19 diz respeito: “A proteção e saúde de todos é a nossa prioridade!”! O som dos comboios é mais frequente, o silêncio já não é ensurdecedor!

A viagem continua!

Marisa Silva, Assessora Helpo Norte

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