Vai ficar tudo bem, se nós deixarmos.

O romantismo, aquela cor pastel de romantismo que se cola às tragédias de forma quase cinematográfica, abandonou a pandemia tão rapidamente como a engoliu. E tudo aquilo que nas horas mais dramáticas emprestava alguma beleza aos dias, varreu-se para debaixo da tentativa globalizada de “regresso à normalidade”. O que surpreende, ou talvez não, é a gigantesca oportunidade perdida para operar alguma mudança. A onda de solidariedade, a sensação contagiante de que ou-estamos-todos-bem-ou-ninguém-estará, a (re)descoberta de que as coisas importantes são só as coisas importantes, tudo isso abafado em discussões sobre o regresso da primeira liga ou a reabertura dos centros comerciais. Como somos bizarros! Como somos moldáveis às circunstâncias. E como somos capazes de nos iludir em nome de uma segurança que só somos capazes de sentir ao saber que controlamos o que nos rodeia, e daí, o “regresso à normalidade”.

Muito bem, cabe-me então o papel ingrato de revelar que não existe “regresso à normalidade”. Existe um esforço sobre-humano para que a forma venha ditar as linhas orientadoras ao conteúdo. Quando ouvimos, da parte das autoridades competentes, que “o vírus não desapareceu, temos que aprender a viver com ele”, é isso que ouvimos e em que se materializa isso? Vejo e sinto pouco de normal na falta dos abraços e no medo da proximidade. Os croquetes nas montras tristes dos cafés e eu a pensar na última vez em que cocei os olhos. Não existe, de todo, “regresso à normalidade” e algum regresso que possa existir a curto-prazo é o regresso anunciado a mais restrições porque não sabemos medir as cautelas fora do terreno das proibições. E eu sou aquela do copo meio-cheio. Isto é o copo meio-cheio! É urgente que nos obriguemos a cumprir meios desejos: estar, ao longe; ver, sem tocar; contrariar a urgência em esquecer o que queremos que passe, e não passa. Um dia, há de ser o que já passou. Lembram-se quando? E todos lembram, a sacudir a cabeça como quem não quer. Um dia, mas até lá, não voltemos a coisas que nos levam para trás. “Vai ficar tudo bem”, se nós deixarmos! 

Joana Lopes Clemente, Coordenadora Geral e Executiva da Helpo

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