Um rosto para lá da estatística.

Este blogue foi pensado para contar as histórias que, de outra forma, nunca seriam contadas. Esta é uma nuance da história do Tomás, que de outra forma, nunca seria contada…

É com uma profunda mágoa no coração que escrevo estas linhas. Sabemos que a morte em Moçambique aparece mais vezes que noutras latitudes, mas a vida nem sempre é justa com todos. Para contextualizar terei que falar de crianças, de comunidades e da Helpo.

Por achar que é o mais correto, sempre afirmei que as crianças apadrinhadas são o símbolo da comunidade, um rosto para uma ajuda que que se multiplica e que chega a uma multiplicidade de caras com o sorriso estampado, das quais não sabemos o nome e não vemos fotos. É difícil não ganhar um vínculo de afetividade com alguém que sendo um símbolo, nos escreve cartas, vemos crescer todos os anos pelas fotos recebidas no Natal e que até há quem faça a foto e carta recebidas ter um lugar na ceia do dia 24. Alguns padrinhos enviam cartas, outros padrinhos enviam presentes. Também há os padrinhos que visitam e conhecem o afilhado, a sua família e a sua comunidade. 

O meu primeiro afilhado em Nampula era da comunidade de Namialo, Meconta, e sempre fui muito desligado dele, apesar de pagar religiosamente as mensalidades.  Sempre que me deslocava à sua escola, ficava atento ao sorriso envergonhado que aparecia por perto, quase sem se fazer notar, só para ouvir-me dizer “Olha o meu afilhado!!!!!”, ganhar um aperto de mão, umas perguntas chatas e um adeus. 

Depois achei que devia ter um afilhado em Cabo Delgado e, na primeira visita à Comunidade de Chinda, Distrito de Mocímboa da Praia, em 2011, conheci o Tomás Fernando. Pela primeira vez a Helpo trabalhava numa comunidade onde a maioria das crianças, se não a totalidade, eram de etnia Maconde. O Tomás era um menino muito pequenino, mas muito enérgico e, depois de tentar trocar umas palavras com ele, apercebi-me que tinha uma malformação numa mão, mas que não o incomodava, nem o inferiorizava. Fiz batota e escolhi o meu afilhado. 

Mais tarde vim a saber que era filho do Líder da aldeia e que era um bom menino em casa. Durante 7 anos sempre que visitávamos a Comunidade de Chinda, falávamos e foi com orgulho que o vi seguir juntamente com outros 23 alunos para a Escola Secundária Januário Pedro, em Mocímboa da Praia. Antes da Helpo apoiar com as bolsas de estudo do Ensino Secundário contavam-se pelos dedos das mãos os que seguiam os estudos.

A última vez que falei com o Tomás Fernando foi em Mocímboa da Praia, em 2019, onde continuava de baixa estatura, mas já com voz grossa. Disse-lhe para se aplicar nos estudos para lhe conseguir um bom emprego em Pemba. Sorriu!

Os ataques pelos chamados “Insurgentes”, radicalizados islâmicos que têm espalhado o terror e a morte na Província de Cabo Delgado, começaram no dia 5 de Outubro de 2017, precisamente em Mocímboa da Praia. Chegámos a ponderar abandonar a intervenção em Mocímboa pelos perigos que poderia representar, mas depois de uma análise cuidada decidimos não recuar, mas sim reforçar o apoio em bolsas de estudo do Ensino do Secundário, o Programa Futuro Maior, com o apoio da GALP e sua Fundação e de outras empresas. À medida que o problema ia aumentando nunca achámos que nos iria bater à porta. A primeira vez que senti que estava num sítio “perigoso” foi quando, em Agosto de 2019, saímos 22km da estrada principal e fomos à localidade de Mbau, para informar os jovens sobre o programa das Bolsas de Estudo. 

Antes disso já tinha visto um cenário triste em três aldeias, Mumu, Ntotwe e Manilha, com casas a fumegar e famílias a fugir com tudo, quase nada…

A 23 de Março de 2020, a Vila de Mocímboa da Praia voltou a ser atacada pelos insurgentes, provocando mais uma vaga de terror. Recebemos a informação que todos os alunos bolseiros da Helpo de Chinda tinham conseguido fugir e chegar bem à sua aldeia, depois de caminharem cerca de 50 km.

No dia 12 de Maio, os insurgentes atacaram a Aldeia de Chinda, provocaram estragos no edifício da Escola, queimaram documentos de trabalho e mataram um aluno da 6.ª Classe, tendo a população fugido para as matas. Passado alguns dias abandonaram a aldeia.

Esta tarde recebi uma notícia que me deixou gelado: os insurgentes atacaram novamente a Aldeia de Chinda e mataram 3 pessoas, entre as quais o Tomás Fernando, meu afilhado. Na vizinha Aldeia Criação 17 pessoas perderam a vida nas mãos dos terroristas. 

Não sei se o vazio e a tristeza que sinto foi pela partida de um menino com quem simpatizava, se pela tremenda injustiça que se abate sempre sobre os mais fracos, estas populações de Cabo Delgado que estão a sofrer horrores, se pelo facto de realmente ser um símbolo de todas as crianças da Aldeia de Chinda e de todas as crianças de todas as aldeias de Cabo Delgado. O Tomás Fernando teve oportunidade de estudar e ir para a Vila, mas o que será feito de milhares de outras crianças da província de Cabo Delgado a quem o futuro é negado e a escola é sempre mais curta do que mereciam em pleno Século XXI? 

A resposta é fácil: as meninas casam-se com 15, 14, 13, às vezes 12 anos e os rapazes sentam em casa. Mas com o fenómeno do terrorismo à porta, é fácil engrossar fileiras com descontentes que não têm nada a perder.

O Tomás Fernando é um símbolo dos meninos que estudam e que lutam por um futuro melhor. A luta basilar contra os movimentos terroristas não se faz com armamento pesado: faz-se com o acesso à educação e com a perspetiva de um futuro diferente de ser mãe aos 14 anos ou de se sentir num beco sem saída aos 15.

Os números de vítimas e de deslocados continuam a aumentar e o que até agora era uma estatística, para mim vai passar a ter um rosto. 

Carlos Almeida, Coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

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