O sítio que desapareceu

A Mocímboa da Praia que vejo nas notícias, não (re)conheço, nunca vi. É só um peso no estômago a esmagar a memória de um sítio que desapareceu. E causa-me estranheza que um sítio precise de desaparecer para entrar no mapa do mundo, das notícias, das urgências.

A estrada para “a minha Mocímboa da Praia” era uma estrada que ficava entre o esquecimento e a distância de tudo, quase nunca percorrida. Cravada pelo silêncio de tudo o que não fossem as vozes das crianças, os gritos dos pássaros, a beleza avassaladora de uma paisagem imensa e virgem que nos lembrava a cada minuto da nossa insignificância e da majestade de que a natureza á capaz. A cada viagem, o carro carregado de um sem fim de paciência e de crateras na estrada, longamente esquecida pelo alcatrão e aliviada pela areia que entre cada época das chuvas era depositada nos buracos para atenuar as mazelas do caminho. O que denunciava outro mundo, outra forma de estar (o território maconde) eram pequenas diferenças na paisagem. As estátuas aos heróis de guerra que vão surgindo ao longo do caminho; mais, muito mais casas com cobertura de chapa em províncias onde as coberturas de capim reinavam abundantemente; e depósitos de recolha de águas da chuva, muitos em cimento.

A primeira vez que ouvi falar de Mocímboa, há mais de 10 anos, foi num pedido de ajuda: lá não há nada, seria preciso tudo. E lá fomos verificar esse “nada” e esse “tudo” e de que forma é que ele se encaixava nas nossas possibilidades de prestar algum apoio no setor da educação, num sítio que se descreve assim. A distância, maior em horas de caminho do que em quilómetros, obrigava a uma noite pelo meio. Depois, com o tempo, foi ficando mais curta e Mocímboa foi ficando mais perto. O caminho começava sempre ainda de noite e terminava sempre já de noite. Mereceu longas discussões por não permitir o cumprimento das normas de segurança da Helpo de não percorrer as estradas depois do anoitecer…Na altura, era uma infração que não merecia grande preocupação por parte de quem a cometia. O perigo, o mesmo de todas as estradas: os veículos que circulam sem luzes, as pessoas que caminham à beira da estrada (às vezes pouco conscientes de si e dos carros), possíveis avarias que seriam sempre mais difíceis de solucionar…Perigos que ficaram noutra vida, para quem ainda percorre essa estrada. 

E a intervenção em Mocímbia da Praia aconteceu na vida da Helpo.

Na minha memória, Mocímboa era assim: uma vila com hora marcada para adormecer, mergulhada na escuridão depois de vermos desligado o gerador municipal. Com hora marcada para comer (só era possível fazer uma refeição avisando com várias horas de antecedência que seriam 2 ou 3). Uma vila onde ao final da tarde, pequenas embarcações e centenas de pescadores desaguavam na praia para avaliar a faina do dia e negociar o que se conseguia. Tudo, mas absolutamente tudo, temperado por uma espécie de anestesia que invade os locais onde o mundo parece não penetrar.

Trabalhar em Mocímboa era jogar com condicionalismos a cada sílaba de pensamento. A criatividade esbarrava sempre nalgum obstáculo. Trabalhámos numa escola primária completa, fomos visitar umas tantas. Demos apoio a bibliotecas e acabámos por apostar em força na ajuda à e através da escola secundária da vila. A única escola secundária do distrito (com mais de 3.500km2). Para as crianças e jovens, o caminho para a fuga a uma vida votada à distância e ao esquecimento, fazia-se por ali. Uma escola grande e nova, com boas instalações, residências para professores e alunos (onde chegámos a pernoitar), e hoje queimada.

A Mocímboa da Praia das notícias, não conheço. Parece-me ouvir falar de outro sítio, tal é o contraste com o que sei. Penso nas caras das pessoas com quem me cruzei, nos sonhos que não chegámos a saber. imagino as outras, as das pessoas das quais só ouvi falar e penso na nossa ingenuidade quando pensávamos que era difícil trabalhar ali, traçar vias de saída para aqueles miúdos…

Acho que não consigo colocar em palavras o que me suscitam as notícias sobre esta “nova Mocímboa”.

Aqui, as crises de agora não têm lugar. O Kenneth, a Covid, as tragédias individuais. Tudo embrulhado no manto escuro da guerra que não deixa ver mais para lá. O protagonismo roubado por uma única crise, a única evitável pelo homem, a única infligida por ele. 

E os milhares de histórias que ficarão por contar, que se encerram no anonimato das vidas que começaram e acabaram por ali, sem escapatória, sem testemunhas. 

Apesar da “minha Mocímboa” ter desaparecido, agora todos sabem que ali não há nada, e que é preciso tudo! Todos sabem que isso levou a que este sítio tivesse desaparecido, engolido pela violência. E todos sabem que há um sem fim de Mocímboas espalhadas por esse mundo fora.

Joana Lopes Clemente, Coordenadora Geral e Executiva da Helpo

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